
O desabamento de um armazém de grãos às margens da BR-163, em São Gabriel do Oeste, voltou a chamar atenção para um desafio que acompanha o crescimento da produção agrícola de Mato Grosso do Sul: a insuficiência de estruturas para armazenar toda a safra produzida no Estado.
O acidente ocorreu em 20 de agosto, em uma unidade da Cooperoeste. A estrutura tinha capacidade para aproximadamente 42 mil toneladas e estava ocupada em cerca de 80% no momento do colapso. Apesar da dimensão do incidente, não houve registro de feridos com gravidade. As causas do rompimento ainda dependem de avaliações e perícias técnicas.
Além das questões relacionadas à segurança estrutural, o episódio colocou em evidência a situação da armazenagem no município. Segundo levantamento do Projeto SIGA-MS, executado pela Aprosoja/MS, São Gabriel do Oeste está entre os municípios do Estado com maior diferença entre a produção agrícola e a capacidade disponível para guardar os grãos.
Município produz mais de 1,1 milhão de toneladas por ano
Considerando a média dos últimos cinco anos, São Gabriel do Oeste produz aproximadamente 533.907 toneladas de soja e 594.547 toneladas de milho por ano. Somadas, as duas culturas representam uma produção média de 1.128.453 toneladas.
Aplicando o acréscimo de 20% utilizado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) na estimativa da demanda potencial de armazenagem, a necessidade chega a aproximadamente 1,35 milhão de toneladas.
Entretanto, a capacidade instalada no município é estimada em 791.313 toneladas, resultando em um déficit de cerca de 562.831 toneladas.
O diretor da Aprosoja/MS e produtor rural Sérgio Marcon avalia que, embora a infraestrutura esteja avançando, o crescimento da capacidade ainda precisa acompanhar a expansão da produção para garantir maior segurança e eficiência ao setor.
Déficit também atinge outros polos produtores
O problema não se restringe a São Gabriel do Oeste. Dados da Aprosoja/MS apontam que a capacidade de armazenagem de Mato Grosso do Sul chegou a 16,39 milhões de toneladas em 2025, crescimento de aproximadamente 10,9% em relação ao ano anterior. Mesmo com a expansão, algumas das principais regiões produtoras continuam apresentando déficit significativo.
No levantamento por déficit absoluto, Maracaju aparece na primeira posição, com uma diferença estimada de 1,35 milhão de toneladas entre a demanda e a capacidade disponível. Na sequência estão Ponta Porã, com 1,23 milhão; Rio Brilhante, com 665 mil; e São Gabriel do Oeste, com 562 mil toneladas.
O cenário é particularmente relevante durante o período de colheita, quando grandes volumes de soja e milho precisam ser retirados das propriedades, transportados e destinados aos armazéns em um intervalo relativamente curto.
Falta de espaço aumenta pressão sobre produtores
A insuficiência de estruturas próximas às áreas produtoras pode interferir diretamente na logística do campo. Quando não há espaço suficiente para receber a produção, o agricultor pode enfrentar maior necessidade de transporte, aumento dos custos e menor flexibilidade para decidir o momento mais adequado para comercializar os grãos.
Para o gerente institucional da Aprosoja/MS, Tauan Almeida, o planejamento da infraestrutura precisa acompanhar a evolução da produção. O coordenador técnico da entidade, Gabriel Balta, também destaca que a localização dos armazéns é um fator importante para reduzir despesas logísticas e facilitar o escoamento.
A entidade mantém ainda um Dashboard de Armazéns de Mato Grosso do Sul, elaborado a partir de dados do Projeto SIGA-MS. A ferramenta permite consultar a capacidade instalada por município e comparar a estrutura disponível com o volume produzido, auxiliando na identificação das regiões que demandam novos investimentos.
Dados nacionais mostram expansão da armazenagem
Em âmbito nacional, o IBGE informou que a capacidade disponível para armazenamento agrícola chegou a 233,8 milhões de toneladas no segundo semestre de 2025, crescimento de 1,1% em relação ao semestre anterior. Mato Grosso do Sul possuía, no período, capacidade de aproximadamente 14,94 milhões de toneladas, segundo a Pesquisa de Estoques do instituto.
Os números mostram que a infraestrutura vem crescendo, mas também evidenciam diferenças entre regiões produtoras. Em Mato Grosso do Sul, polos com forte produção de soja e milho continuam necessitando de investimentos para reduzir a distância entre a quantidade colhida e o espaço disponível para armazenamento.
O desabamento ocorrido em São Gabriel do Oeste, portanto, ultrapassa a questão do acidente estrutural e reacende o debate sobre a necessidade de ampliar e modernizar a infraestrutura de armazenagem. Para um Estado que vem aumentando sua produção agrícola, garantir espaço adequado para conservar os grãos é considerado um dos pontos estratégicos para reduzir gargalos, controlar custos e melhorar as condições de comercialização para os produtores.

