
Por Roberto Reis – 7/4/2026
O governo Lula pode apontar um número grande, vistoso, vendável: entre janeiro de 2023 e dezembro de 2025, o Brasil abriu mais de 4 milhões de empregos formais. O problema começa quando essa planilha é aberta.
Quase toda a criação líquida ficou concentrada nas faixas mais baixas. A faixa de 1 até 1,5 salário mínimo, sozinha, absorveu 3.976.438 vagas. A de até 1 salário mínimo somou mais 963.035. Dali para cima, a paisagem muda de forma brutal.
Entre 1,5 e 2 salários mínimos, o saldo foi negativo em 113.187 vagas. Entre 2 e 3 salários mínimos, a perda chegou a 336.585. Entre 3 e 5, 162.654 negativos. Entre 5 e 10, 111.215 negativos. Acima de 10 salários mínimos, 70.391 negativos.
A classe média CLT acabou
Restaram só os funcionários públicos. Esse é o ponto central.
O Brasil segue gerando ocupação, mas a ocupação que mais cresce está encostada no piso. A escada que levava o trabalhador do emprego de entrada para um padrão de vida de classe média ficou praticamente inexistente. Foi serrada.
Quando se soma o triênio, o desenho fica ainda mais claro: cerca de 5,16 milhões de vagas líquidas até 1,5 salário mínimo e destruição líquida de aproximadamente 790 mil acima disso. O país lotou a base e esvaziou o meio.
A tese fica mais forte quando se olha a porta de entrada. Em fevereiro de 2026, o salário médio real de admissão foi de R$ 2.346,97. Com o salário mínimo em R$ 1.518 em 2025 e R$ 1.621 em 2026, isso significa que a vaga média nova gira em torno de 1,4 a 1,6 salário mínimo.
Isso desmonta a propaganda fácil do pleno emprego. O Brasil pode ter desemprego baixo e, ao mesmo tempo, destruir mobilidade social.
A PNAD registrou taxa anual de desocupação de 5,6% em 2025, população ocupada recorde de 103 milhões e rendimento médio real habitual de R$ 3.560. Tudo isso convive com um mercado em que 35,3% dos trabalhadores recebem até 1 salário mínimo e apenas 7,6% passam de 5 salários mínimos.
A média mente
Outro detalhe melhora a leitura do quadro: a média conta uma história otimista demais. A mediana conta a história real. Na RAIS do setor privado, a remuneração média real em dezembro de 2023 foi de R$ 3.514,24. A mediana foi de R$ 2.290. A diferença é enorme. A média sobe puxada pelo topo. A mediana mostra o trabalhador típico.
O diploma perdeu força
A erosão chega ao coração da promessa de classe média. O ensino superior perdeu parte importante de seu prêmio salarial. O rendimento real médio de trabalhadores com diploma caiu de R$ 7.495 por mês em 2012 para R$ 6.619 em 2024, queda real de 11,7%.
Em paralelo, a informalidade entre trabalhadores com ensino superior cresceu, a presença de pejotizados avançou em setores qualificados e mais de um terço dos diplomados passou a atuar em ocupações abaixo da qualificação adquirida.
Esse é um dos dados mais devastadores de todo o quadro, porque atinge o pacto psicológico da classe média. Durante décadas, a mensagem foi clara: estudar, acumular credenciais e entrar no mercado formal geraria estabilidade, progressão e previsibilidade.
O mês seguinte virou problema
Renda não é o único ponto. Previsibilidade também virou luxo. A taxa ajustada de rotatividade do emprego bateu 33,64% em 2025. Um terço.
Isso explica por que tanta gente olha para o noticiário econômico, vê celebração oficial e sente irritação. O saldo líquido pode ser positivo no papel e, ainda assim, a vida concreta piorar. Rotatividade alta, faixa salarial apertada, crédito caro e horizonte curto produzem um trabalhador empregado, mas inseguro.
E insegurança continuada corrói a sensação de futuro e joga a favor de alternância de governo.
A blindagem do alto estatal
Enquanto o setor privado aperta, o Estado preserva ilhas muito mais protegidas. O Censo 2022 registrou rendimento médio de R$ 4.131 no setor público, contra R$ 2.406 no privado, diferença de 71,7%.
Em outro recorte, servidores federais recebem prêmio salarial de 96% sobre trabalhadores privados com qualificação equivalente.
É aqui que o modelo lulista fica exposto: o pobre está assistido por transferência e valorização da base. O rico se protege com patrimônio, capital e renda financeira. O topo estatal conserva remuneração e estabilidade corporativa. O trabalhador privado de classe média fica no corredor do meio, pagando imposto alto, endividado, comprando escola e saúde no mercado e vendo sua posição material derreter aos poucos.
A máquina travou
Esse esvaziamento do meio não nasce só de vontade política. Ele também decorre de uma economia travada. A produtividade do trabalho brasileiro cresceu apenas 0,6% ao ano nas últimas quatro décadas. A Selic chegou a 15% em 2025. Os juros reais ficaram entre os maiores do planeta.
A origem do problema antecede Lula, mas é ele que vai pagar a conta. A desindustrialização de décadas e a estagnação produtiva já vinham empurrando o mercado para baixo. A crítica ao lulismo é outra: Lula não inventou a doença. Lula governou dentro dela, conviveu com ela e não fez nada.
O Brasil de Lula 3 gerou muito emprego. Gerou, sobretudo, emprego de entrada. A base foi alimentada. O meio foi abandonado por esse governo.
A classe média privada perdeu renda relativa, perdeu proteção, se endividou, perdeu prêmio educacional e perdeu previsibilidade. Ela continuou trabalhando, continuou pagando a conta e continuou afundando.
Lula chutou de vez todas as escadas de ascensão da classe média.

