
O setor industrial brasileiro apresenta sinais de um “fôlego curto” neste encerramento de ciclo. Segundo os Indicadores Industriais divulgados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) nesta segunda-feira (19), o faturamento real da indústria de transformação registrou alta de 1,2% em novembro de 2025. No entanto, a boa notícia nas vendas não foi suficiente para estancar a crise no mercado de trabalho do setor.
O emprego industrial recuou 0,2%, marcando o terceiro mês consecutivo de demissões. O movimento reflete o impacto tardio, mas severo, da taxa Selic elevada — atualmente em 15% ao ano — que tem encarecido o crédito e freado investimentos em expansão.
O Efeito Retardado dos Juros
Embora o acumulado do ano ainda apresente um saldo positivo de 1,7% no emprego (herança do bom desempenho de 2024), o cenário mudou drasticamente no segundo semestre de 2025. Desde setembro, o setor já acumula uma retração de 0,6% nos postos de trabalho.
“Demitir e recontratar é custoso, pois a indústria exige mão de obra qualificada. Por isso, as empresas tentaram segurar os funcionários o máximo possível, mas após meses de atividade fraca sob juros altos, o corte tornou-se inevitável”, explica Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI.
Radiografia da Indústria (Novembro/2025)
| Indicador | Desempenho no Mês | Acumulado no Ano (Jan-Nov) |
| Faturamento Real | 🟢 +1,2% | 🟡 +0,3% |
| Emprego Industrial | 🔴 -0,2% | 🟢 +1,7% |
| Massa Salarial | 🟢 +1,5% | 🔴 -2,3% |
| Rendimento Médio | 🟢 +1,6% | 🔴 -4,0% |
| Capacidade Instalada (UCI) | 🔴 77,5% | 🔴 -2,4 p.p. (vs 2024) |
A Utilização da Capacidade Instalada (UCI) caiu para 77,5%, o que indica que as máquinas estão ficando mais tempo paradas em comparação ao mesmo período do ano passado.
Salários: Alívio após quedas seguidas
Após quatro meses de perdas, a massa salarial e o rendimento médio voltaram a crescer em novembro. O aumento de 1,5% na massa salarial traz um alívio pontual para as famílias, mas o poder de compra do trabalhador industrial ainda está longe de se recuperar: no acumulado de 2025, o rendimento médio real sofreu um “tombo” de 4%.
Perspectivas para 2026
A CNI projeta que a indústria deve continuar enfrentando ventos contrários no início de 2026. A baixa confiança do empresariado e o encarecimento das dívidas operacionais sugerem que novas contratações só devem ocorrer se houver um sinal claro de redução da taxa de juros pelo Banco Central.
O cenário de “estagflação industrial” — onde o faturamento oscila próximo de zero (0,3% no ano) enquanto os custos de manutenção da folha sobem — coloca 2026 como um ano de foco total em ganho de produtividade e redução de endividamento.

