
O crime de tráfico de pessoas tem encontrado na internet um novo e fértil terreno para suas atividades. Um levantamento da SaferNet Brasil revela um aumento alarmante de 152% nas denúncias de conteúdos suspeitos relacionados ao crime cibernético no período de 2022 a 2024, em comparação com o triênio anterior. A intensificação dos registros aponta para a modernização das redes criminosas, que utilizam a internet para aliciamento, controle e exploração de vítimas.
A discussão sobre o tema ganhou destaque em Mato Grosso do Sul, que celebrou no último dia 30 de julho o Dia Estadual de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas. A data foi instituída por uma lei do deputado Gerson Claro (PP), que também criou a Campanha Coração Azul no estado.
O Ambiente Virtual como Ferramenta de Aliciamento
Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), divulgados no Relatório Nacional de Tráfico de Pessoas de 2024, confirmam a gravidade da situação. Segundo o estudo, 78% dos entrevistados – profissionais que atuam na área – indicam que a internet é a principal ferramenta para o recrutamento de vítimas. No tráfico para exploração sexual, as mídias sociais são o principal meio de aliciamento em 52% dos casos. Já para o trabalho análogo à escravidão, o agenciamento virtual é a segunda estratégia mais utilizada.
A defensora pública Thaisa Raquel Defante, coordenadora do recém-criado Núcleo Estadual de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (NETP/MS), alertou sobre os riscos do ambiente digital. “Você não deixaria seu filho andar sozinho numa avenida movimentada à noite. Mas e na internet? Não é igual ou até pior?”, questionou. Ela explicou que os aliciadores exploram fragilidades e desejos das pessoas, usando propostas de emprego ou oportunidades em outros países para ganhar a confiança das vítimas.
Vulnerabilidades Exploradas e Ações de Enfrentamento
O relatório do MJSP também identifica os principais fatores de vulnerabilidade explorados pelos criminosos. Condições socioeconômicas precárias (22%), baixa escolaridade (18%), e a condição de migrantes ou refugiados (14%) foram as mais citadas por profissionais da área.
Em resposta ao problema, Mato Grosso do Sul reforça sua estrutura de combate ao crime com a criação do NETP/MS, uma unidade administrativa vinculada ao Ministério da Justiça que visa fortalecer a rede de prevenção, assistência às vítimas e repressão ao tráfico de pessoas.
A defensora Thaisa Defante ressaltou a importância da participação social na luta contra o tráfico. “Denuncie. Quando tiver uma suspeita, uma situação de tráfico de pessoas, você pode fazer uma denúncia anônima. Denuncie para o Disque 100 ou Disque 180”, orientou.

