
O Parque Jacques da Luz, no bairro Moreninhas, em Campo Grande, foi palco neste sábado (19) da “Ação Cidadania #TodosPorElas – Pelo Fim do Feminicídio”, uma iniciativa interinstitucional que mobilizou 89 organizações e ofereceu cerca de 250 tipos de serviços gratuitos. O evento, focado no combate à violência de gênero, destacou a importância da coragem para denunciar e da união de esforços para reduzir os índices de feminicídio.
Maria Aparecida Alves da Silva, de 64 anos, moradora do bairro Paulo Coelho Machado, comentou a relevância da ação após assistir a um vídeo produzido pela TV ALEMS sobre o ciclo da violência doméstica. “Muitas mulheres têm medo dos maridos, mas é preciso ter coragem pra pedir ajuda”, afirmou. Ela considerou o material muito informativo e disse ter aprendido bastante.
A campanha #TodosPorElas é uma realização conjunta dos três Poderes – Executivo, Judiciário e Legislativo – de Mato Grosso do Sul, com o objetivo de reduzir os ainda elevados índices de feminicídios e outras violências contra as mulheres. Apenas em 2025, 19 mulheres foram assassinadas no estado por serem mulheres, e nos últimos dez anos, o número de feminicídios soma 351 casos, conforme o Monitor da Violência Contra as Mulheres, desenvolvido pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) e pela Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).
Legislativo Atuante e Visão de Futuro
O deputado Pedro Kemp (PT), 2º Secretário da ALEMS e representante da Casa de Leis no evento, ressaltou que a violência contra a mulher tem múltiplas causas, com o machismo sendo a principal. “É preciso o envolvimento de todos os Poderes, da sociedade como um todo, para que façamos políticas públicas de proteção e de garantia de direitos das mulheres, mas também é preciso que haja uma série de ações no sentido de formar as novas gerações para uma nova cultura na sociedade: uma cultura de respeito, de convivência fraterna, de tolerância”, completou o parlamentar.
Kemp destacou a atuação da ALEMS na defesa dos direitos das mulheres, citando a participação na vinda de Maria da Penha (que deu nome à lei) e a contribuição para a proposta da Delegacia Especializada de Atendimento às Mulheres em regime de 24 horas, que culminou na Casa da Mulher Brasileira, um centro de serviços integrados.
A desembargadora Jaceguara Dantas da Silva, idealizadora da campanha #TodosPorElas e coordenadora da Mulher do TJMS, enfatizou a importância da ação para o exercício da cidadania e a inclusão social das mulheres. “Esta campanha busca fazer com que a mulher seja protagonista da sua história e consiga sair do ciclo de violência”, disse.
Informação e Serviços Essenciais à População
Uma sala no Parque Jacques da Luz foi transformada em um minicinema, exibindo um vídeo da TV ALEMS que explica o ciclo da violência doméstica, orienta sobre como pedir ajuda e denunciar, e apresenta leis de proteção às mulheres. Ao final do vídeo, as parlamentares Lia Nogueira (PSDB), Gleice Jane (PT) e Mara Caseiro (PSDB) reforçam a mensagem de que as mulheres não estão sozinhas. A ALEMS, por meio da Escola do Legislativo Senador Ramez Tebet, também distribuiu uma cartilha informativa sobre leis, telefones úteis e a coleção infantil “Cidadania é o Bicho”.
Além das ações voltadas diretamente à violência de gênero, o evento ofereceu uma ampla gama de serviços. Paulo Augusto da Silva, 51 anos, morador do bairro Centro-Oeste, chegou às 5h45 para cortar o cabelo gratuitamente com alunos do projeto Central de Cursos para Inclusão Profissional da Prefeitura de Campo Grande. A saúde bucal foi atendida por profissionais do Serviço Social da Indústria (SESI), como Giovanna Emanuelle, de 12 anos, que aliviou uma dor de dente.
O evento também proporcionou momentos de lazer e solidariedade. Rebeca Nohara, de oito anos, ganhou uma boneca na pescaria do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MS). Thaís Lopes, 26 anos e grávida de sete meses, recebeu um kit de banho para seu bebê, Matias. Bicicletas do Serviço Social do Comércio (SESC) e lanches também foram distribuídos.
Entre os cerca de 250 tipos de serviços oferecidos estavam: consulta a CPF/CNPJ, cancelamento de protestos, 2ª via de certidões (nascimento, óbito, casamento), serviços jurídicos familiares (divórcio, guarda, reconhecimento de paternidade), ofertas de emprego, imunização contra influenza, treinamento em primeiros socorros, prevenção e promoção da saúde mental, bioimpedância e massagem. Aproximadamente 2 mil pessoas compareceram ao local apenas na manhã do evento.
A Memória da Violência e os Números Preocupantes
Um estande do TJMS apresentou o projeto “Estrelas além do tempo: Mulheres que brilham”, que recupera a memória de mulheres vítimas de violência no estado, como o caso de Ritha Ferreira de Laura, morta em Corumbá em 1878.
Dados do Monitor da Violência Contra as Mulheres revelam que, de 2017 a julho de 2025, 351 mulheres foram vítimas de feminicídio em Mato Grosso do Sul. O ano de 2022 foi o mais violento, com 44 feminicídios. Embora o estado tenha reduzido os números, ainda apresenta taxas elevadas. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2024), MS registrou 30 feminicídios em 2023, com uma taxa de 2,1 por 100 mil mulheres, a quinta maior do país, apesar de uma redução de 31,8% em relação a 2022.
O feminicídio foi tipificado como crime pela Lei 13.104/2015, que o incluiu como qualificadora do homicídio e no rol dos crimes hediondos. A lei define feminicídio como o homicídio de mulher por razões da condição de sexo feminino, incluindo violência doméstica e familiar, menosprezo ou discriminação à condição de mulher.
Mais informações e materiais sobre a campanha #TodosPorElas, assim como detalhes sobre as ações da Assembleia Legislativa em defesa dos direitos das mulheres, estão disponíveis nos sites oficiais.

